Sábado, 18 de Outubro de 2008

Uma oportunidade para sobreviver

Centro de Recuperação de Animais Selvagens de Montejunto (CRASM)
Uma oportunidade para sobreviver
 



Com gestos ponderados e suaves, os médicos veterinários Hugo Lopes e Ana Gomes avaliam o estado de um peneireiro acolhido no Centro de Recuperação de Animais Selvagens de Montejunto (CRASM) em meados de Setembro.

Aquela ave decidiu viajar da Madeira até Lisboa num navio e, ao fim de quase 48 horas sem alimentação. Deu entrada no centro muito debilitada e desidratada. Cerca de quinze dias depois, o veterinário autorizou finalmente a sua saída do internamento para uma câmara de muda, onde terá mais espaço para voar e correr e onde poderá readquirir hábitos de alimentação.

Quando a libertação estiver próxima, será transferida para um túnel de voo, um espaço maior e mais aberto, que obriga os animais a exercitarem-se.

De há um ano para cá que a rotina se repete no centro e uma vez por semana os técnicos pesam e observam os animais, realizam os tratamentos necessários e deixam indicações aos oito voluntários que todas as tardes alimentam as aves. Gente de todas as idades, aposentados e profissionais das mais variadas áreas, que têm em comum o gosto pela conservação dos animais e pelo voluntariado.

Os veterinários cobrem a cabeça do peneireiro com um pano e a respiração da ave torna-se menos ofegante, o animal acalma-se. O escuro é um tranquilizante natural para as aves, que assim podem ser mais facilmente manuseadas. A ave está a recuperar e em breve será libertada.

Sedeado na aldeia da Tojeira, o CRASM é um projecto da Quercus com o apoio da Junta da Freguesia do Vilar. Esteve parado durante vários anos, por falta de verbas. Foi retomado em 2006 e começou a receber animais em Setembro do ano passado, apesar das instalações ainda não estarem totalmente concluídas. Representou um investimento de 50 mil euros, com apoio de donativos.

Por ali já passaram 16 aves e um mamífero, uma raposa atropelada em Santarém e entretanto já libertada. Actualmente acolhe nove aves, que representam o grosso das ocorrências. Tem capacidade para acolher entre 12 a 15 animais.

Os animais chegam feridos e debilitados, entregues por particulares ou recolhidos por elementos do centro. Vítimas das alterações climáticas, das pressões urbanísticas e de actividades humanas, sofrem mais frequentemente atropelamentos, tiros, queda de ninhos, colisões em infra-estruturas ou electrocussões, entre outras. Ao CRASM têm chegado essencialmente órfãos e vítimas de colisões. Ali recuperam até estarem prontos para regressar à vida selvagem. É por isso que espera uma coruja do mato que se viu presa numa chaminé e ficou com a plumagem e as unhas destruídas ao tentar libertar-se. Está no centro desde Abril e encontra-se um pouco melhor. Enquanto o veterinário-chefe avalia o seu estado a ave está tranquila, sente-se protegida pela escuridão.

O CRASM sobrevive com o apoio de particulares e empresas e tem actualmente um protocolo assinado com as lojas Modelo e Continente, através do Programa Europeu Negócios e Biodiversidade. “Estamos a tentar a todo o custo segurar a gestão com o pouco dinheiro que temos, esticando a corda quase até ao limite”, refere José Manuel Bernardo, coordenador do centro. Aquele responsável reconhece que “esta é uma fase pouco dinâmica, temos muitas limitações”, entre a quais a falta de equipamentos de enfermaria e laboratório, entre eles um raio-x. Por outro lado, as instalações estão por concluir, falta colocar rede em dois espaços de voo para as aves nocturnas e só recentemente foi terminado o túnel de voo, onde durante dois meses um milhafre preto testou as suas capacidades até ser declarado apto para a vida selvagem. Foi a primeira ave a ser libertada, um ano após a abertura do CRASM.

Em 2009, o centro quer lançar o projecto para a construção de uma sala de cirurgia. Uma vez que tenha os devidos recursos humanos, também faz parte dos seus objectivos desenvolver investigação na área médico-veterinária, biologia e ecologia e promover actividades de educação ambiental.


Perante um animal ferido o CRASM aconselha

Quem encontrar um animal ferido deve contactar de imediato o SEPNA (Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente) da GNR através da Linha SOS Ambiente e Território disponível 24 horas por dia (808 200 520) ou um centro de recuperação da área. O CRASM pode ser contactado através da Junta de Freguesia de Vilar, ligando o 262 771 060.

Ao encontrar o animal, este deve ser recolhido, colocado dentro de uma caixa de papelão perfurada, para que possa respirar, e ser resguardado num ambiente escuro e sossegado. Não deve manter-se o animal em contacto com pessoas ou num local ruidoso e iluminado. No caso de aves, isso pode provocar-lhes a morte. Também não deve ser oferecida água nem alimentação. “Há pessoas que ao tentar dar de beber os matam por asfixia. Por exemplo, há aves que não bebem, retiram os líquidos das carnes que ingerem. No caso da alimentação, a ave pode estar tão debilitada que alimentá-la pode significar a morte”, explica José Manuel Bernardo.

Para os técnicos do centro, é sempre útil saber em que condições e onde o animal foi encontrado, isso poderá levantar algumas pistas quanto ao seu estado de saúde.


Apadrinhamento

Sem fins lucrativos, o centro tem no apadrinhamento dos animais em recuperação uma fonte de receitas.

Qualquer um pode ser padrinho, bastando para tal entrar em contactar com o centro, através da Junta de Freguesia de Vilar, ligando o 262 771 060.

O padrinho ou madrinha contribui com um donativo único de 25 euros, no caso de uma ave de classe inferior. Esse contributo é válido para um período de seis meses e embora “seja insuficiente, é uma grande ajuda para a alimentação e aquisição de fármacos que venham a ser necessários”, explica José Manuel Bernardo.

Os padrinhos são mantidos ao corrente do estado de saúde dos afilhados e podem inclusive visitá-los, com as devidas restrições, uma vez que “nós não somos um jardim zoológico, somos um hospital de fauna selvagem”, como recordou aquele responsável. Finalmente, são convidados para o evento de libertação do animal.
 
 
Autor: Eunice Francisco Data: 2008-10-16

 

Fonte: BADALADAS

publicado por Ricardo C. às 10:29

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